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ENTREVISTA |
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MAIO DE 2007 Augusto Henriques D.O, B.Sc.(Hons.)Ost.Med., PG.Dip., D.Hyp. GEDOP - Pode-nos descrever um pouco como foi o seu primeiro contacto com a Osteopatia? Augusto Henriques - História longa (...), família com problemas de saúde que ninguém resolvia. Tinha que haver algo para além do contexto português. Sempre tive predisposição para a mecânica, medicina, etc… Seria interessante desenvolver o tema: pequena história de criança, que um dia posso contar! GEDOP - Como se formou como osteopata? A.H. - Terminei o meu curso de Osteopatia em 1983 na British School of Osteopathy, escola criada em 1917 pelo Dr. Martin Littlejohn, fundador do Chicago College of Osteopathy, agora Chicago College of Osteopathic Medicine, Midwestern University, nos Estados Unidos. GEDOP - Como era estudar em Londres na época em que o fez? Haviam outros estrangeiros? A.H. - Excelente. Havia muito poucos estrangeiros em Osteopatia, fomos pioneiros. No meu ano havia um austríaco (ficou em Londres a trabalhar), uma belga, uma francesa, um médico alopata iraniano e é claro, eu. Entrámos 111 alunos no 1º ano, formamo-nos 67. O colega iraniano só se formou no ano seguinte, apesar de ser médico chumbou em 1983 nas finais. GEDOP - Como era vista a Osteopatia no Reino Unido na época? A.H. - Bem, uma necessidade. Embora nem todos, como o grande público, soubessem na década de 80 o que era a Osteopatia. Muitas vezes pensavam que tinha a ver com a medicina alopática; as pessoas tinham a ideia que era uma medicina diferente, mas não sabiam diferenciar – penso que pela consequência daquele que trata com autonomia. GEDOP - O que significa nos dias de hoje ter sido formado como osteopata na Inglaterra e estar registado na Ordem de Osteopatia do Reino Unido (General Osteopathic Council – GOsC)? A.H. - Orgulho, pela qualidade e interesse na qualidade, para salvaguardar os interesses dos pacientes; rigor e prestígio com desenvolvimento profissional continuo obrigatório. Mesma dignidade que médico alopata, médico dentista ou médico veterinário, etc. GEDOP - O que seria a Osteopatia portuguesa se não houvesse profissionais formados em países onde a Osteopatia está regulamentada? A.H. - Pergunta pertinente que merece uma resposta rigorosa e politicamente correcta: - serve de termo de referência, assim não haveria muitas referências à origem. GEDOP - Qual considera ser o papel destes profissionais registados, na comunidade osteopática? A.H. - Não percebo o teor da pergunta. Embora, digamos rigor e cumprir um código deontológico e “CPD” obrigatório. Colocar o Paciente primeiro. Respeito, consideração, obrigação e o direito de poder honestamente ganhar o Pão de cada dia e olhar olhos nos olhos os pacientes e estes o Osteopata e sabermos que está ali um profissional competente, seguro; que sabe onde estão os seus limites e está ali para olhar pela saúde do doente/paciente/utente ou cliente. Pois a Osteopatia considera a saúde (promoção, etc..), a doença, a higiene, a alimentação, etc… GEDOP - Que realidade encontrou em Portugal quando regressou? A.H. - Em 1983, uma desgraça. Foi pior que desbravar terreno e subir a pulso, muito difícil. Excelente com os pacientes pelos resultados obtidos. No género: desde que eticamente possível e aconselhável – dito aos pacientes para falarem com quem prescreveu antes de tomarem decisão; mais tarde sucedia algum amigo ou familiar perguntar ao paciente após consulta osteopática e alguns tratamentos ou um dia a seguir por exemplo: - “O que te receitou o Sr. Dr. (osteopata é claro) para estar/es tão bem?” – Resposta: “Tirou-me remédios e deu-me umas voltas ou torceu-me, etc..!” Dizia o primeiro: “O quê? Não percebo, nem exames te pediu? ” – note-se isto sucede muitas vezes! Deixe-me realçar que devido às técnicas de diagnóstico os osteopatas muitas vezes não necessitam de exames que são necessários na medicina convencional para se chegar a um diagnóstico (Referência: Osteopathy and the NHS – UK). GEDOP - Quais as dificuldades que sentiu para se impor num país onde a Osteopatia era totalmente desconhecida? A.H. - Totais sem qualquer ajuda, confundido, só dificuldades, mas tinha o conhecimento e o orgulho de algo que é importante para a sociedade, seguir o exemplo da história por exemplo “Galileo Galilei”. Até fui levado a tribunal e ganhei, foi dada razão à verdade honestidade e seriedade com muita dignidade porque me formei numa escola que sempre teve cuidado com a formação dos futuros osteopatas, a British School of Osteopathy. GEDOP - O que se recorda da comunidade osteopática nessa altura? A.H. - Não havia comunidade em 1983 em Portugal. Conhecia 2 acupunctores e nada mais, além da Dra. Margaret. Ouvia-se que havia alguns, que não sabíamos o que faziam ou qual a sua formação. GEDOP - Sabe quem foi o primeiro osteopata a trabalhar em Portugal? O que nos pode dizer desses primeiros tempos? A.H. - Margaret Christine Reynolds Edlmann D.O., MRO (Registada no General Council and Register of Osteopaths e membro da Osteopathic Association of Great Britain). Ela trabalhou em Portugal desde os anos 60, do século XX. Era conhecida pelos seus pacientes como a “Senhora Doutora Inglesa”. Fui assistente da Dra. inglesa desde que me formei até ela falecer. A nossa relação era muito próxima, era como se ela fosse minha tia. A Dra. Inglesa era prima de uma senhora da família Reynolds, amiga dos meus pais. GEDOP - O que nos pode contar da história da Osteopatia em Portugal? A.H. - Tempos difíceis desde sempre. GEDOP - Como foi observando a evolução da profissão em Portugal? A.H. - Apareceram alguns cursos em Portugal, houve alguma formação que desconheço o grau de qualidade. Admito que até possa ser do melhor que exista a nível Europeu, não sei. Tudo se mexeu com o meu processo em Tribunal e com a tentativa da passagem do Acto Médico pela Ordem dos Médicos… Entrei em campanha, ou melhor dizendo, em “CRUZADA”. GEDOP - Como faz o seu Desenvolvimento Profissional Contínuo em Osteopatia, uma vez que em Portugal não é possível? A.H. - Por tudo o que é sítio, embora em Portugal seja também possível actualmente. Aprende-se com tudo (!). Desde que haja qualidade, Osteopatia não é um agregado de técnicas, mas sim uma filosofia assente em princípios, conceitos, valores e fundamentos científicos. Por consequência todo o conhecimento dentro dum certo contexto é necessário. GEDOP - Na sua opinião pode falar-se em diversas correntes de Osteopatia no mundo? E em Portugal? A.H. - Confusões! Só há uma Osteopatia/Medicina Osteopática. Embora existam uns “génios” que por interesses económicos, usando as capacidades homeostáticas do organismo sem por vezes compreenderem o que estão a fazer, apelidam muita coisa de Osteopatia. Todos se arvoram donos e senhores do conhecimento. Só se pode seguir a genuinidade da Osteopatia onde esta se desenvolveu e tem tradição que é o caso dos Estados Unidos e Reino Unido. GEDOP - O que está a acontecer a nível mundial na Osteopatia? A.H. - Enorme interesse e necessidade, embora muita confusão e atropelos de outras profissões que deviam sim trabalhar cada um no seu múnus. Muitos estão a prejudicar a ciência e o livre desenvolvimento. Diga-se de passagem que a ciência está a pagar erros passados cometidos na História. GEDOP - Quais os países do mundo onde a Osteopatia está regulamentada? A.H. - Muitos, incluindo a Finlândia, que o Exmo. Primeiro Ministro actual tanto fala. O curso é subsidiado pelo Estado. GEDOP - Como surgiu ser o representante da Osteopatia na Comissão para a Regulamentação? A.H. - De um acordo entre os profissionais/associações/federações e escolha oficial. Ambos foram consonantes. GEDOP - Parece-lhe que o Processo de Regulamentação vai levar a uma alteração positiva da profissão? A.H. - Se não se fizer uma regulamentação correcta tornar-se-á oneroso ao País e os pacientes sairão prejudicados. GEDOP - O que o move pessoalmente neste processo todo? A.H. - Ter sido levado a Tribunal sem ter cometido nenhuma infracção. Argumentavam que praticava actos exclusivos dos médicos alopatas e não podia usar o título de “Dr.” O tribunal deu-me razão em tudo. Aí cheguei à conclusão que algo estava profundamente mal no meu País e não posso parar até que tudo, com dignidade e respeito, esteja devidamente resolvido. Que ninguém sofra mais aquilo que eu sofri, pois criaram-me situações que jamais resolverei na minha vida. Fui profundamente prejudicado. A sociedade tem meios para resolver tal em democracia. GEDOP - Que conselhos gostaria de deixar? Algum comentário final? A.H. - Temos que ter muita pedagogia, pois num futuro próximo todos os profissionais deverão estar unidos numa mesma associação para beneficio dos pacientes e da profissão. |
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