ENTREVISTA

 

 

 

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AGOSTO DE 2007

Entrevista a Jorge Esteves

GEDOP – Quais eram os seus objectivos quando decidiu ir viver para o Reino Unido? 

J.E. – Queria tornar-me um melhor profissional, em termos osteopáticos, e progredir academicamente, ou seja, realizar um mestrado ou doutoramento.

 
GEDOP – Quais foram as suas primeiras impressões quando integrou a comunidade osteopática no Reino Unido, uma vez que em  Portugal o sistema de ensino e o exercício profissional são totalmente diferentes?

Jorge Esteves – Fui viver para Inglaterra em 1999 e os primeiros tempos foram de facto difíceis, pois em geral toda a abordagem osteopática é diferente. As diferenças vêem-se em muitos aspectos, desde a forma de elaborar a história clínica até ao modo de lidar com o doente. Levei algum tempo a adaptar-me, foi muito difícil fazer a transferência de conhecimentos de um sistema para o outro e, principalmente, da forma de pensar. Quando comecei a ver doentes na clínica académica da Oxford Brookes University tive de colocar de lado todo o conhecimento que tinha adquirido anteriormente e adaptar-me rapidamente a uma nova realidade.

GEDOP – Além de querer progredir academicamente, houve também em termos pessoais uma ligação com o ensino, como acontecia em Portugal?  

J.E. – Sim. Sempre tive uma paixão pelo ensino, desde que iniciei o meu trabalho como osteopata. Nos primeiros tempos em que estive no Reino Unido não ensinava e, por isso, sentia um vazio enorme. Entretanto, fui convidado a colaborar com a Oxford Brookes University. Aos poucos a situação de equilíbrio entre o exercício clínico e a actividade de docência foi-se alterando e o ensino assumiu um papel cada vez mais importante na minha vida. No início foi muito duro estar envolvido num projecto  que envolvia a organização de uma licenciatura de Osteopatia na Oxford Brookes University e, ao mesmo tempo, investir no meu desenvolvimento curricular para que fosse reconhecido pelo General Osteopatic Council (Ordem dos Osteopatas do Reino Unido). Quando cheguei o curso da Oxford Brookes University ainda não estava validado pela Ordem dos Osteopatas, por falta das condições necessárias, que eram do mais variado tipo.
 

GEDOP – Foi uma oportunidade única poder participar nesse projecto desde a sua génese?  

J.E. – Sim, foi fantástico de facto. O curso teve que passar por todas as fases de desenvolvimento, desde a elaboração do plano curricular, passando pelo recrutamento e preparação de docentes e terminando com a sua implementação e gestão quotidiana. Começámos com a primeira licenciatura em 2002. É extremamente interessante poder acompanhar o aluno desde o primeiro ano até se formar como osteopata. É fantástico observar o seu desenvolvimento pessoal, a aquisição de conhecimentos e a forma como os aplica em ambiente clínico.  
 

GEDOP – Como é que caracterizaria, rapidamente, essa estruturação do curso? Tem níveis de desenvolvimento e progressão ao longo do curso? Como é que o treino clínico é conjugado com a componente teórica?  

J.E. – No fundo o curso rege-se por um documento do General Osteopathic Council, que enumera todas as competências que o aluno deve vir a demonstrar na sua vida profissional. Esse documento serve de modelo para desenvolver todo o programa curricular dos cursos. Em qualquer licenciatura, os dois primeiros anos são basicamente  constituídos pelas ciências de base, as ciências biomédicas, como anatomia, fisiologia, psico-sociologia e todo o conhecimento relacionado com quadros clínicos já identificados, ou seja, patologia. Este conhecimento inicial, de base, é fundamental para os alunos depois poderem estar integrados num ambiente clínico e poderem trabalhar como profissionais autónomos. Este conhecimento permitir-lhes-á funcionar como prestadores de cuidados primários, uma vez que são treinados para identificarem condições de risco, onde a intervenção osteopática deva ser condicionada ou até contra-indicada. E, consequentemente, encaminhados para o profissional clínico adequado ou para a realização de exames de diagnóstico complementares. No nível seguinte, foca-se o ensino para o desenvolvimento das capacidades de avaliação, de diagnóstico e terapêutica osteopática. Em termos de avaliação confere-se uma enorme ênfase ao desenvolvimento da habilidade palpatória. A nível da técnica osteopática, o ensino começa com técnicas aplicadas aos tecidos moles, seguida de diversas formas de mobilização articular e, por fim, inclui-se técnicas, entre outras, denominadas funcionais ou cranianas. A componente clínica do curso inicia-se no primeiro ano, contudo, nos dois primeiros anos os alunos só passam algum tempo na clínica a observar os colegas dos anos mais adiantados, a conhecer o funcionamento de uma entidade clínica, embora participem dentro do seu nível nos grupos de discussão dos casos clínicos. Esta participação é também uma forma de os introduzir ao trabalho osteopático, facilitar a aquisição de conhecimentos e chamar a atenção para a relevância das matérias que estão a aprender. A partir do terceiro ano os alunos começam a liderar a intervenção clínica, diagnosticando e efectuando o tratamento osteopático, com tudo o que isso implica, desde a aplicação de técnicas manuais, a aconselhamento, passando por reencaminhamento para outros profissionais de saúde, se a situação o justificar. O objectivo é que no último ano da licenciatura, cinco anos no curso part-time ou quatro no de tempo inteiro, o aluno se sinta competente e seguro para começar a sua carreira clínica autonomamente. A vertente clínica da licenciatura decorre em clínicas académicas da própria universidade e os alunos são intensivamente supervisionados por tutores ligados à universidade.


 GEDOP – Os supervisores clínicos recebem formação específica para poderem exercer essa função de orientarem o desenvolvimento clínico dos alunos?  

J.E. – Existe uma preocupação para que esse supervisores clínicos, que no Reino Unido se denominam tutores clínicos, recebam uma formação de base em educação, caso não a possuam ainda. É uma das novas normas do ensino superior no Reino Unido. O entendimento é que para além dos tutores terem que ser excelentes profissionais na sua área clínica, e a Ordem dos Osteopatas do Reino Unido encarrega-se de o garantir, sejam também pedagogos competentes. No fundo são consideradas duas profissões distintas, com exigências particulares e quando o objectivo é exercer ambas, então tem de haver formação em cada uma.

 
 GEDOP – O objectivo é que os alunos sejam conduzidos ao longo do curso até ao ponto em que sejam competentes e seguros e se sintam como tal, de forma a estarem preparados para exercer Osteopatia sozinhos, sem necessitarem de ninguém a supervisioná-los?  

J.E. – Exacto. A Lei que permitiu a Regulamentação dos Osteopatas prevê que as pessoas que saiam de um curso de Osteopatia estejam minimamente preparadas para trabalhar de forma autónoma. É lógico que uns atinjam um nível bastante elevado e outros apenas atinjam um nível mínimo, mas isso acontece em todas as áreas. Além disso, uma das particularidades do curso da Oxford Brookes University é que os alunos sejam capazes de lidar com a incerteza clínica, ou seja, com a realidade de não haver solução para todas as condições clínicas que surgem; de muitas vezes não haver sequer um diagnóstico conclusivo. É preciso não esquecer que se está a lidar com seres humanos, os utentes e os clínicos, de alguns utentes possuírem paralelamente quadros clínicos do foro médico, etc. Apesar do quotidiano na clínica ser sobretudo osteopático, na área neuro-musculo-esquelética, o aluno para poder ser capaz de trabalhar autonomamente e sem dependência de outros clínicos, nomeadamente médicos, deve ser capaz de lidar com essa incerteza. O princípio base da sua intervenção é centrado em considerar que todas as pessoas que se apresentam com um determinado problema, mesmo que possa parecer aparentemente banal em termos osteopáticos, possa, na realidade, ser mais grave. O aluno deve preocupar-se em ir mais além e questionar-se: "Existirá outra causa que pode provocar os mesmos sintomas?"; "Será que estou absolutamente certo do meu diagnóstico?" Esta é uma das nossas preocupações e, embora seja difícil de alcançar, é fundamental que os alunos evoluam nesse sentido e adquiram essa capacidade. No fundo é serem críticos e reflectirem sobre a sua actuação.


GEDOP – Em Portugal há uma certa “promiscuidade” entre a Osteopatia e a Fisioterapia, uma vez que muitas formações em Osteopatia são dirigidas apenas para fisioterapeutas. No Reino Unido existe esta inter-relação?

J.E. – Não, de todo. Aliás, se disser tal coisa aos osteopatas e fisioterapeutas britânicos, eles de uma forma geral ficam de boca aberta pelo espanto de tal informação, aliás, nem compreendem o porquê dessa relação. No Reino Unido e em qualquer parte do mundo onde as profissões estejam regulamentadas, são disciplinas completamente diferentes, não há sobreposição. A própria regulamentação ocorreu em momentos históricos distintos e os seus conteúdos funcionais são diferentes. Aqui a Fisioterapia, por exemplo, está regulamentada desde 2005, ou seja, 12 anos depois da Osteopatia e está inserida numa Ordem  profissional genérica, Health Professions Council, que engloba muitas profissões da  Saúde, como fisioterapeutas, dietistas, podologistas, terapeutas da fala, terapeutas ocupacionais ou paramédicos. Por seu lado, a Osteopatia foi regulamentada por uma Lei do Parlamento, de 1993, e consequentemente foi criada uma Ordem profissional própria – General Osteopathic Council. Este organismo tem como função garantir a protecção dos utentes através do controlo da profissão, quer a nível da formação de base, quer a nível do desenvolvimento profissional contínuo. As duas profissões nada têm a ver uma com a outra. É lógico que existem fisioterapeutas que são osteopatas e osteopatas que são fisioterapeutas, como em outras áreas; no entanto, a maior parte dos profissionais mantém apenas uma profissão, o que é lógico, uma vez que têm identidades próprias e filosofias e intervenções distintas.  
 

GEDOP – Existem osteopatas a trabalhar no Sistema Nacional de Saúde (NHS) do Reino Unido?  

J.E. – Sim, existem alguns. Estes osteopatas intervêm basicamente na vertente músculo-esquelética, integrados em equipas clínicas que incluem fisioterapeutas e ortopedistas. Mas não são muitos e não atingem os números que muitas pessoas gostariam de ver. A razão porque não há mais osteopatas a trabalhar para a NHS é sobretudo económica. Este facto está relacionado com questões de financiamentos, que são necessários para essa integração no Serviço Público.

  
 GEDOP – O Dr. Jorge Esteves fez um mestrado em ciências da educação com especialização na área do raciocínio clínico aplicado ao desenvolvimento da competência clínica na Osteopatia. Qual é a relevância desse estudo para a profissão?  

J.E. – No que diz respeito à profissão propriamente dita não tem uma relevância directa. No entanto, em termos de ensino, de organização e construção de diversas formas de conhecimento que são desenvolvidas durante o período de formação de base, que decorre desde que os alunos iniciam a sua prática clínica até ao momento em que se formam, é fundamental. Quanto mais soubermos sobre o processo de desenvolvimento de competência,  mais eficaz poderá ser a aprendizagem dos alunos e melhor osteopatas se poderão tornar. Portanto, há todo o interesse em aperfeiçoar o  tipo de informação que transmitimos aos alunos. Além disso, tudo o que esteja relacionado com a área cognitiva fascina-me, só por isso já valia a pena fazer investigação nessa área.  

GEDOP – É dos poucos osteopatas no mundo a fazer investigação científica na área da educação aplicada à própria Osteopatia?  

J.E. – Penso que sim, tanto quanto sei não existem muitos.  
 

GEDOP – Calculo que também seja dos primeiros osteopatas a realizar um doutoramento. O seu doutoramento surgiu na sequência das investigações realizadas no âmbito do mestrado, ou mudou totalmente de área?  

J.E. – Sim, sou um dos poucos osteopatas a fazer doutoramento. Embora, ultimamente, comece a sentir um interesse crescente por parte dos profissionais em investir nesse sentido. O meu doutoramento foca-se em duas linhas de investigação. Uma está em continuidade com uma das linhas de investigação já explorada no mestrado, a do raciocínio clínico no desenvolvimento de competência do osteopata. Procuro expandir o conhecimento acerca dos mecanismos por detrás da perícia do raciocínio clínico na área osteopática A outra está relacionada com uma área totalmente diferente, embora relacionada. Nesta segunda procura-se saber como os osteopatas processam a informação através dos órgãos dos sentidos durante o exame clínico e a integram para a tomada de decisão clínica. Todos nós sabemos que profissionais como os osteopatas, fisioterapeutas, quiropráticos, entre outros, recorrem à palpação como forma de diagnóstico. A informação recolhida através deste método caracteriza-se por ter pouca fiabilidade. Na verdade qualquer artigo científico que se baseie nesse método de investigação de dados clínicos carece de fiabilidade. O meu interesse, a par de outros investigadores, é ir além dessa evidência e perceber porque é que isso acontece. Será que tem a ver com o método de diagnóstico que usamos? Ou será que tem a ver com fenómenos  relativos ao processamento da informação recebida pelo sistema nervoso central, o qual difere de indivíduo para indivíduo? Essa informação é recebida por humanos e não por máquinas onde não existe modificação da informação recebida. Estas são as duas grandes linhas de investigação no meu doutoramento. Eu adoro coisas complexas, têm que ser complicadas, caso contrário aborreço-me facilmente.

Embora o doutoramento seja na área das ciências da educação, tentei fazer a ligação à neurociência cognitiva. A minha investigação tem a ver com neurociência e com teorias complexas da neuropsicologia. Mais uma vez, o doutoramento tem a ver com tudo o que possibilite aumentar a eficácia do sistema ensino-aprendizagem da Osteopatia. A minha decisão em enveredar pelo doutoramento tem também a ver com ambições pessoais a nível académico, como a progressão na carreira. Contudo, espero que seja uma viragem para mim em relação à Educação em Osteopatia.  

GEDOP – Para além de ser docente, supervisor clínico, sub-coordenador de um curso de Osteopatia, exercer clínica, ainda tem algumas funções ligadas à Ordem dos Osteopatas do Reino Unido. Pode-nos falar um pouco do seu trabalho nessa vertente?  

J.E. – Pertenço a uma comissão que tem como objectivo a promoção da investigação científica na Osteopatia no Reino Unido. Além disso, faço parte do grupo de examinadores em exames de competência clínica de osteopatas que venham do estrangeiro, como por exemplo Austrália, Nova Zelândia e Estados Unidos e queiram começar a exercer no Reino Unido. Estou também integrado no grupo de avaliadores no processo de regulamentação, validação e acreditação das licenciaturas de Osteopatia no Reino Unido. A nossa função, como representantes da Ordem dos Osteopatas, é efectuar uma rigorosa avaliação de qualidade das escolas e cursos. Digamos que é o selo de garantia no processo de controlo de qualidade dos cursos, imposto pela Ordem dos Osteopatas, às universidades que os leccionam ou que acreditam os cursos das escolas privadas. A Ordem dos Osteopatas funciona como um órgão governamental, em que um dos objectivos no controlo da competência dos profissionais em formação é a avaliação da qualidade dos cursos de base.  

GEDOP – Há 9 anos quando saiu de Portugal o Processo Regulamentação das Terapêuticas Não Convencionais, designação com que ficaram conhecidas em Portugal, onde a Osteopatia se inclui, ainda não tinha tido início. Neste momento o processo está a decorrer. Por ter tido a oportunidade de passar pelo processo de regulamentação da Osteopatia no Reino Unido, parece-lhe útil aproveitarmos essa experiência e importarmos até o mesmo modelo?  

J.E. – Penso que sim, que seria importante aproveitar o trabalho já feito, até porque tem dado óptimos frutos no Reino Unido. Apesar de a profissão aqui existir desde 1918, só foi regulamentada definitivamente no ano de 1993. A primeira tentativa de regulamentação ocorreu em 1930 e foi chumbada pelo Governo da altura. Apesar de terem passado muitas décadas desde essa tentativa, a Osteopatia no Reino Unido continua a ser uma profissão recente e jovem e ainda tem de evoluir de forma a atingir a maturidade. Creio que o mesmo irá acontecer em Portugal. A profissão será regulamentada, mas os osteopatas não apresentarão, de imediato, o mesmo nível de competência e formação que já atingimos no Reino Unido. É necessário encontrar um método justo e capaz de avaliar a competência clínica dos candidatos a osteopata,   à semelhança do que se passou no Reino Unido. Todos os osteopatas tiveram que se submeter à mesma forma de avaliação, para poderem conquistar o direito de exercer legalmente. Deve-se procurar fazer o mesmo em Portugal. No modelo britânico houve osteopatas que foram seleccionados e previamente preparados para organizar, implementar e controlar o processo de avaliação da competência clínica dos colegas. De certa forma as coisas já estão um pouco facilitadas para Portugal, porque já há uma série de osteopatas que foram formados aqui e que estão devidamente registados, fazem parte da profissão no Reino Unido.

Certamente a Regulamentação irá permitir desenvolver licenciaturas de base em Osteopatia com qualidade. Só assim a sociedade poderá aperceber-se que a Osteopatia não é mais nem menos do que as outras profissões e que tem um lugar próprio como profissão autónoma da Saúde, centrada em princípios próprios e uma linha de intervenção que é diferente, a caracteriza, e distingue, e que nenhuma outra pode proporcionar ou substituir. É claro que não será fácil desenvolver estas licenciaturas de base, mas após assim que a Regulamentação estiver concluída e os cursos possam ser desenvolvidos, os planos curriculares serão elaborados e implementados. Um dos principais entraves iniciais será, necessariamente, o recrutamento de pessoas que tenham um nível de capacidade capaz de apoiar a formação e desenvolvimento desses cursos. O problema não se coloca nas disciplinas de base, como anatomia, filosofia ou patologia, onde é fácil encontrar docentes de muita qualidade em Portugal, mas sim nas disciplinas específicas da Osteopatia.

A necessidade não se centra apenas na docência, mas também na capacidade da profissão promover o desenvolvimento profissional contínuo dos osteopatas ao longo da sua carreira, na sequência da formação de base. É fundamental garantir que os profissionais sejam capazes não só de serem autónomos, competentes e seguros no exercício profissional, mas funcionarem como representantes da profissão em termos sociais. No fundo, que cada osteopata se sinta representado pelo seu colega e que se orgulhe de pertencer à profissão na suas diversas dimensões, começando pela ética e deontológica. Esta será uma das primeiras dificuldades a vencer. A seguir, de certeza absoluta, surgirão problemas políticos dentro da própria profissão. É uma situação normal! Em qualquer profissão onde ocorram alterações profundas, há pessoas que acabam por lutar para preservar certa posição política ou condição socioprofissional que, durante muitos anos, tenham detido, mas que as novas circunstâncias obrigam a uma renovação. Será extremamente importante promover a unificação da classe. Esse objectivo não será fácil de atingir, mas chegar-se-á lá com certeza. É preciso calma e tempo para levar a uma nova ordem dentro da Osteopatia. Aconteceu o mesmo no Reino Unido, embora essa renovação ainda não esteja concluída, hoje as coisas já estão bem melhor.


 GEDOP – Provavelmente a nossa maior fraqueza em Portugal é a falta de matéria-prima, ou seja, de profissionais capazes de promover essa reestruturação, a menos que os osteopatas comecem a fazer formação específica nessa área em países como o Reino Unido, para que possam ser contagiados por esse espírito e forma de pensar. A sua experiência como participante activo da renovação da Osteopatia no Reino Unido, quer a nível académico, quer socioprofissional, coloca-o numa posição em que provavelmente será o único português a deter tais conhecimentos neste momento.  

J.E. – É um facto que tenho experiência profissional nessa área, mas não considero que seja o único português qualificado. Pelo contrario. Fui privilegiado em ter adquirido essa experiência e por tudo o que tenho tido oportunidade de viver. Foi fantástico ter tido a oportunidade de participar no desenvolvimento de um plano curricular e da implementação de uma licenciatura de base, submetê-la à avaliação da Ordem dos Osteopatas e ser aprovada com elevada excelência. Organizar uma licenciatura a tempo inteiro, com possibilidade de terminar em mestrado, foi outro projecto onde estive envolvido e que terminou da melhor forma. Nada disto é fácil, é necessário muito trabalho, esforço e dedicação. É claro que a este nível há que ter formação profissional específica que nada tem a ver com ser-se um clínico de Osteopatia. Mas em Portugal o importante é que sejam dadas oportunidades às pessoas para atingirem esse nível de conhecimento e, com o tempo, acumularem a experiência necessária. É preciso que os osteopatas compreendam que apesar de a profissão ser distinta, os métodos de ensino e aprendizagem não são diferentes. Como tal, tenho a certeza que existem muitos bons modelos e exemplos de boa prática clínica, noutras áreas, que podem ser transferidas para a Osteopatia e assim facilitar a tal renovação. Existem, em Portugal, pessoas com qualidade para promover e desenvolver  a Osteopatia. Podem até haver osteopatas que estejam interessados em investir nesse campo, mas isso tem a ver com vocação pessoal e com prioridades em termos de carreira. É normal que um osteopata quando acaba a sua formação de base só pense em termos clínicos, mas há muitos que ao fim de alguns anos de exercício clínico comecem a ver na educação um desafio novo e estimulante, algo que os realize, que lhes dê um novo fôlego na carreira. E quem sabe, trocarem uma carreira clínica por uma na educação.

GEDOP – Pode-se concluir das suas palavras que está de acordo com a ideia que quantos mais osteopatas vierem para o Reino Unido e poderem passar por todo este sistema, mais fácil se tornará para a profissão em Portugal se desenvolver e atingir os padrões de prática dos países onde a profissão está regulamentada?

J.E. – Acho que é importante sim. Se as pessoas tiverem essa oportunidade, deverão aproveitá-la. Não é fácil, existem muitos desafios a serem vencidos, alguns espinhos, mas as pessoas que o fizerem, conseguirão atingir uma maturidade e um nível de conhecimento diferente daquele que possuíam. O facto de passarem por essa experiência enriquecê-los-á como pessoas e como profissionais. É muito importante para o desenvolvimento pessoal, nem que seja pelo facto de ficarem expostos a uma cultura e modo de pensar diferentes. Se tiverem essa oportunidade será bastante importante, em termos do futuro da Osteopatia portuguesa.

GEDOP – Algum comentário final que gostasse de deixar?  

J.E. - Não, isso parece mais uma pergunta para um futebolista. Fora de brincadeira - Força!