ENTREVISTA
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JUNHO DE 2008

 Entrevista a Pedro Escudeiro 

 

Joana Almeida*- O que é o GEDOP?

PE- O GEDOP é um movimento de osteopatas que procura elevar os padrões de prática da Osteopatia em Portugal. Fá-lo através de diversas formas e iniciativas. A palavra GEDOP corresponde às iniciais de “Grupo de Estudo para o Desenvolvimento da Osteopatia em Portugal”. Tentou-se que o nome deste projecto, pela sua simples leitura, fornecesse imediatamente uma pista para se compreender o seu objectivo de base. Felizmente, a palavra constituída pelas suas iniciais faz algum sentido, daí referirmo-nos a “GEDOP” apenas.

O GEDOP não é nenhuma organização profissional, é apenas um movimento que existia de forma latente, a que foi dada expressão em 2003, ou seja, um carácter mais concreto e, por isso, visível. O princípio base é apenas um, promover a Osteopatia de qualidade. Apesar de não haver rostos, há algumas pessoas que irão encarregar-se de colaborar mais activa e regularmente neste projecto e que são chamados membros activos. Estes membros vão rodando, entrando e saindo, porque cada um tem a sua vida e nem sempre é fácil conciliar tudo. No entanto, os primeiros elementos foram a Teresa Garcia, o Jorge Nunes, o Alexandre Nunes e eu. Actualmente, os mais activos são o Alexandre Nunes e o Eduardo Esteves.

 Esta será uma iniciativa que se irá tornando naquilo que a sua própria evolução determinar e que pretende, sobretudo, tornar-se num ponto de encontro de osteopatas. Por não estar associado a qualquer grupo ou organização profissional, espera-se que seja uma zona neutra de troca de informação e opinião, que pelo seu carácter saudável possa enriquecer e ajudar a criar uma profissão mais unida, coerente e de qualidade. Sempre com a preocupação de ajudar os osteopatas a enriquecerem-se.

JA- Poderá a sua evolução levar à transformação do Movimento em associação profissional?

PE- Nunca se sabe, mas não creio, pelo menos não está nos nossos planos. Já há demasiadas associações e o que se tem visto é que só servem para tentar defender pequenos grupos de osteopatas e isso tem levado ao espartilhamento e enfraquecimento da profissão. Em Portugal só precisamos de uma associação, mas que funcione de facto e que represente efectivamente os osteopatas como um todo. Além disso, no GEDOP não nos queremos desviar daquilo que é importante, que é valorizar-nos como profissionais de Osteopatia. O nosso objectivo é proteger a Osteopatia e não grupos de osteopatas. Estarmos envolvidos numa associação profissional exigir-nos-ia um esforço para passarmos a perceber de um assunto de que nada sabemos. Muito desse trabalho deve ser feito por pessoas de outras áreas profissionais, porque têm preparação para tal. Pessoalmente, já tive a minha experiência associativa e neste momento não tenho qualquer motivação para me voltar a envolver. Só tenho pena é que hajam tantas pessoas que nos peçam para formarmos uma associação profissional, porque isso revela o vazio que há apesar de haver uma dezena ou mais de organizações destas, mas isso são outras histórias.

JA- Como é que se envolveu com a Osteopatia?

PE- Quando estava terminar o 12º ano, com 17 anos, estava um pouco indefinido quanto ao curso a escolher, mas pensei em seguir Fisioterapia. Creio que toda a gente que faz actividade física e no decorrer desta acaba por sofrer lesões, desenvolve um interesse pela área da reabilitação e recuperação física. No meu caso ainda teve mais importância, porque uma dessas lesões aos 15 anos foi grave e levou-me a uma cirurgia, onde fiz Fisioterapia. No entanto, na hora de escolher um curso, fiquei a saber que o de Fisioterapia não estava totalmente integrado no regime nacional de Educação e, por isso, com a participação da família achou-se que não seria a melhor opção. A decisão recaiu no curso de Engenharia Física e dos Materiais, pois reunia algumas condições importantes, como ser um curso com saída profissional, estar ligado às tecnologias de ponta e ser bastante variado em termos de matérias. Apesar de ter adorado estar na Faculdade de Ciências e Tecnologia, da Universidade Nova, e ter feito excelentes amigos, quando estava a frequentar o 4ºano de curso, penúltimo, desisti da licenciatura. O curso não me satisfazia em pleno, comecei a olhar para o meu futuro como engenheiro e achei que era melhor alterar o rumo da minha formação académica o mais cedo possível.

Como a atracção pela área da Saúde ainda estava viva comecei a fazer alguma pesquisa e cruzei-me com um livro de Osteopatia. Creio que o que me agradou foi o envolvimento físico do próprio clínico, que manipulava todas as partes do corpo dos pacientes. Comentei o facto com os meus pais e a minha mãe disse-me que conhecia uma osteopata em Cascais. Fui visitá-la para saber onde poderia fazer o curso e fui informado que antes sequer de pensar nisso teria de me tornar fisioterapeuta ou médico, pois era um requisito obrigatório. E lá fui eu para Fisioterapia!

Quando estava quase no final do curso de Fisioterapia conheci outro osteopata que me informou que não precisava de ser fisioterapeuta para aprender Osteopatia e deu-me um contacto de uma escola. Essa escola, o Centro Osteopático de Lisboa, tinha uma parceria com uma universidade inglesa, a Oxford Brookes University, o que me atraiu bastante, embora não tivesse ideia nenhuma do estado da profissão em Portugal ou fora, nem me tivesse informado de outras escolas ou até sobre estas. Simplesmente arrisquei. Como o curso começava passado pouco tempo decidi matricular-me.

JA- Essa ligação entre a escola portuguesa e a universidade inglesa foi decisiva para o seu futuro?

PE- Acabou por ser, mas não tanto pela ligação entre as escolas, mais pelo facto de ter conhecido aquele que considero como a taça de champanhe da Osteopatia portuguesa – Dr. Jorge Esteves. 

JA- Como assim?

PE- As conversas que mantive com o Jorge Esteves durante meses, mesmo sem nos termos conhecido presencialmente, permitiram-me ficar a saber a história da Osteopatia em Portugal e todos os seus meandros, assim como o que se passava em termos da profissão no resto do mundo, nomeadamente, Reino Unido.

JA- As idas para Inglaterra começaram nessa altura?

PE- Não, foi uns tempos mais tarde, quando acabei o bacharelato que fiz no Centro Osteopático de Lisboa. Acabou por surgir naturalmente. Nas conversas que mantive com o Jorge Esteves depressa percebi que a Osteopatia em Portugal nada tinha a ver com a Osteopatia no Reino Unido e comecei a sentir necessidade de a ir vivenciar. Quando estava quase a acabar o curso, o Jorge Esteves convidou-me para ir lá durante umas semanas e aceitei claro. Foi uma oportunidade excepcional que me marcou profundamente. Se já tinha a ideia que a Osteopatia de um país regulamentado era de outra dimensão, depois do que vi fiquei sem quaisquer dúvidas. Depois dessa primeira ida comecei a ir com alguma frequência.

JA- Como surgiu ir estudar definitivamente para Inglaterra?

PE- Ao fim de alguns anos a ir e vir para Inglaterra para aprender junto desta comunidade de osteopatas, comecei a sentir que precisava de algo mais. Primeiro, o grau académico conferido pelo curso que fiz em Portugal era insuficiente para poder progredir academicamente, que era um dos meus objectivos. Depois também havia a questão da qualificação académica não fazer prova da minha competência clínica. Esse estatuto só poderia ser adquirido fazendo um exame de competência a um organismo estatal criado para o efeito. Como em Portugal isso não era possível, só me restava o Reino Unido. Finalmente, sentia necessidade de ser exposto ao próprio processo de ensino da Osteopatia. Não me bastava ter os conhecimentos, queria vivenciar e ser moldado pelo sistema académico. Foi basicamente por estes motivos que fui para Inglaterra fazer a licenciatura.

JA- A que projectos se tem dedicado o GEDOP?

PE- Temos tido diversas iniciativas, um pouco à medida daquilo que sentimos que são as necessidades da profissão e, claro, da nossa disponibilidade. Começámos por fazer formações de vários tipos, todas sem fins lucrativos…

JA- O que quer dizer com formações sem fins lucrativos?

PE- Quer dizer que as pessoas que organizam não ganham nada com a formação. Bem pelo contrário. No fundo é como se as pessoas se juntassem para trazer a Portugal formadores com quem querem aprender e nós organizássemos tudo. A nossa ideia sempre foi a de redução de custos ao máximo e isso só se consegue à custa de muito sacrifício pessoal de quem organiza. Os formadores ficam instalados na minha casa e transportamo-los para todo o lado. Estas despesas são todas por nossa conta. Depois há todo o trabalho de encontrar um local para as formações, da divulgação, dos contactos, do apoio durante a formação, etc. Muitas vezes ainda temos de perder as próprias formações ou parte delas, porque temos assuntos a tratar relacionados com as mesmas. E uma coisa que quase ninguém sabe - nós pagamos as formações que organizamos - sempre, como qualquer participante. É muito desgastante para nós. Para além das horas que gastamos a tratar de todos os detalhes, ao longo de semanas, ainda temos de aguentar a pressão de termos de suportar as despesas se alguma coisa correr mal. O único consolo é o reconhecimento das pessoas que participam, porque sabemos que se não fossem os baixos preços muitas pessoas não teriam a oportunidade de conhecer formadores de alto nível. O que também se conseguiu foi mostrar à comunidade osteopática que é possível fazer formações cobrando pouco às pessoas. Tentámos sempre trazer a Portugal osteopatas registados em países onde a profissão está regulamentada, pois só esses é que nos dão a garantia da sua qualidade profissional.

JA- Para além das formações, que outros projectos têm tido?

PE- Por vezes são mais iniciativas do que projectos, na verdade. Consultámos um advogado especializado na área laboral no campo da Saúde e fizemos uma série de perguntas que tinham a ver com a situação legal da profissão, como o regime em termos de Ministério das Finanças, da intervenção da Entidade Reguladora da Saúde, das qualificações académicas, entre outras situações de interesse geral e específico. Dessa consulta elaborámos uma mensagem que disseminámos através dos nossos contactos electrónicos, com esclarecimentos importantes. Colocámos também à disposição das pessoas que nos contactaram, por causa da sua situação legal, um advogado que os pudesse ajudar.

JA- Há mais iniciativas?

PE- Sim, criámos grupos de estudo e de trabalho para os osteopatas poderem criar laços e evoluírem em conjunto. A troca de experiências e de conhecimentos é essencial para o desenvolvimento profissional e para criar união entre profissionais. O osteopata é uma pessoa muito isolada e, por isso, é fácil ficar totalmente deslocado do que se passa em termos de actualização. Além disso, é muito importante que esteja em contacto com colegas, porque todos têm algo em comum e a partilha só enriquece as pessoas. Esse é o caminho para a criação de uma verdadeira comunidade.

Criámos uma página na internet para tentar divulgar informações, dar a conhecer pessoas, através de entrevistas ou comentários e permitir divulgar acções. O Alexandre Nunes tem tido um trabalho fantástico, porque para quem tem uma vida tão ocupada, ainda ter de aprender sozinho a fazer e a gerir uma página na internet, mesmo que simples, é de louvar.

Outra iniciativa foi termos iniciado um levantamento do estado da profissão em Portugal, a diversos níveis, da história à organização socioprofissional. No entanto, tivemos que adiá-la, porque assim que começámos a recolha de dados percebemos que estávamos a criar um grande desconforto num pequeno grupo de pessoas. A questão central é que se vive de uma imagem que não corresponde à realidade, muitas organizações são apenas uma fachada, são entidades fantasma, como definiu o advogado que colabora connosco e que estava a participar do levantamento. Como não pretendíamos desmascarar ninguém, não é esse o nosso papel ou objectivo, resolvermos adiar esse projecto.

Organizámos a primeira e até agora única reunião com os líderes e representantes de todos os grupos de osteopatas acerca da Regulamentação. Foi excepcional ver que é possível juntar as pessoas e que há mais coisas que nos unem do que nos afastam. Não é que nós acreditemos que o mundo deva ser perfeito ou que nos devemos todos dar muito bem, isso é muito ingénuo e não passa apenas de um pensamento bonito. A questão é que quanto mais força mostrarmos para fora, quanto mais coesão tivermos, mais fácil será abrirmos caminho à autonomia e à implementação da Osteopatia, entre os utentes, perante os nossos parceiros na Saúde e, claro, relativamente às entidades estatais.

Neste momento estamos envolvidos no projecto mais sério de todos e com as mais profundas implicações para a profissão. Por saber que os padrões de prática em Portugal estão muito abaixo dos mínimos exigidos pelos dos países onde a profissão está regulamentada, resolvemos tentar alterar isso. Depois de conversarmos com uma série de osteopatas concluímos que havia interesse, da parte das pessoas, em elevar a qualidade do exercício profissional através do desenvolvimento de capacidades e competências. Adicionalmente, sabendo o que está proposto para a regulamentação da profissão e para o processo que permitirá aos osteopatas continuarem a sê-lo, e por este ser bastante exigente, procurámos dar às pessoas a oportunidade de se prepararem convenientemente para terem mais hipóteses de virem a ser aprovados nesse processo, que terá em princípio a forma de avaliação de competência. Aquilo que fizemos foi contactar alguns osteopatas britânicos, especializados na preparação e avaliação deste tipo de processos de candidatos a osteopatas e com sensibilidade para o caso português, para organizarem e realizarem a preparação das pessoas que se mostrassem interessadas. Se dentro deste grupo de pessoas houver quem pretenda candidatar-se ao registo como osteopata no Reino Unido, por ter facilidade com a língua inglesa e o nível exigido como osteopata, nós ajudamos nessa candidatura.

JA- E esse registo num país onde a profissão está regulamentada, mesmo sendo estrangeiro, seria importante?

PE- Sabe, isto não é uma questão de provincianismo bacoco relativamente ao Reino Unido. A Osteopatia está muito avançada e a evoluir num sentido muito bom, é exemplar. É o resultado de já serem muitos profissionais, de serem bastante organizados, de haver uma imensa pressão das instâncias estatais para se desenvolverem, de terem recorrido, nas suas lutas, a especialistas que nada têm a ver com a profissão, etc. Por isso, o registo num país onde a profissão está regulamentada tem repercussões a nível pessoal e profissional difíceis de quantificar. Primeiro que tudo é a prova que o osteopata é suficientemente competente para pertencer a uma comunidade de exigência elevada. Portanto, proporciona a satisfação pessoal, o reconhecimento público de entidades estatais da União Europeia e o reconhecimento dos pares e outros profissionais de Saúde da sua qualidade. Sem esse estatuto haverá sempre a dúvida da sua competência e do merecimento de pertencer à classe. O problema é que não basta ter sucesso clínico ou graus académicos para se ser considerado competente, é preciso prová-lo de outras formas e uma delas é a segurança do exercício clínico. E esta questão tem a ver com a própria autonomia que se reclama em Portugal para o osteopata, pois só pode ser autónomo quem for competente e seguro. É justo querermos autonomia clínica e ambicionarmos o mesmo estatuto de outras profissões já implementadas na Saúde, mas é preciso estarmos dispostos a pagar o preço para o merecermos. E o preço é a exigência interna. Temos o exemplo do Reino Unido, onde um osteopata registado está obrigado a manter a sua competência e fazer prova dela anualmente, caso contrário é retirada a licença para exercer. Isso obriga o osteopata a manter-se num nível sempre muito elevado.

Por outro lado, os osteopatas portugueses que estiverem integrados num registo oficial têm acesso a todo o desenvolvimento da profissão, compreendendo e vivenciando como a Osteopatia vai evoluindo. Mesmo que amanhã os osteopatas sejam regulamentados em Portugal, ainda levará muitos anos até que atinjamos o nível que já se tem onde a profissão está regulamentada. Serão estas pessoas, expostas à profissão de qualidade, que poderão empurrar o barco para a frente. Aqueles que não foram treinados nesses modelos dificilmente terão a percepção, sensibilidade e conhecimentos para levar a profissão no sentido correcto. Não é que não tenham vontade ou até capacidade, mas não conhecem outra realidade. Pior, têm medo de outras realidades. Estas são algumas das razões porque é tão importante ajudar quem quer ir mais longe.

Mas eu queria deixar bem claro que o objectivo desta iniciativa não é que as pessoas se registem no Reino Unido, isso é apenas uma consequência natural para alguns. O objectivo é elevar a qualidade do exercício profissional e ajudar quem quer evoluir no desenvolvimento de capacidades que constituem a identidade do osteopata. A minha perspectiva pessoal ao trazer formadores de excelência a Portugal, é poder proporcionar, a custos reduzidos, a possibilidade dos osteopatas portugueses contactarem com a essência da profissão. O ideal seria as pessoas irem lá fora beber directamente das fontes, vivenciar o ambiente, deixarem-se impregnar por essa cultura, para depois voltarem com uma Visão que lhes dê a motivação para ajudar os que não tiveram a oportunidade de sair. O objectivo a longo prazo é termos uma comunidade osteopática de excelência e de que todos nos orgulhemos. 

JA- Se não tivesse concluído a sua formação no Reino Unido não teria essa competência e capacidades?

PE- Nunca, nem de perto nem de longe. O que eu sinto no Reino Unido é que se tivermos potencial e nos esforçarmos ele é amplificado e bem aproveitado. Há respeito e admiração pelas pessoas que revelam mais-valia. Creio que no fundo foi isso que sempre me atraiu no país e nas pessoas. Senti-me sempre respeitado e valorizado ao longo destes anos, desde que fui pela primeira vez como simples observador, até hoje que faço parte do corpo docente de uma universidade. Tenho sido um privilegiado, sinceramente, porque tenho sido exposto a todas as fases de elaboração e gestão de um curso de Osteopatia e tenho convivido com alguns dos mais influentes e marcantes osteopatas a trabalhar no Reino Unido. E nada me daria mais prazer do que expandir essa realidade para Portugal. Partilho o sonho com alguns colegas meus de ver nascer cá dentro osteopatas de alto nível.

JA - Que reacções têm tido com este projecto de elevação da qualidade do exercício profissional?

PE- As reacções que realmente interessam são as das pessoas que participam, pois só essas podem falar sobre o projecto porque o conhecem. O que nos transmitiram foi que compreenderam a necessidade de elevar a sua competência e segurança como clínicos de Osteopatia e que gostariam muito de prosseguir com esta preparação. Também puderam ter uma noção do seu estado em termos de conhecimentos, em comparação com o que é exigido nos países onde a profissão está regulamentada. Essa auto-reflexão foi muito importante para eles, segundo os próprios, pois creio que nunca tinham tido a oportunidade de o fazer. É uma oportunidade rara ter osteopatas especialistas em analisar a competência em Osteopatia a olhar para cada um dos participantes e a identificar as suas lacunas, para os poder ajudar a eliminá-las.

Da parte da organização sentimos uma felicidade enorme por termos conseguido, pela primeira vez em Portugal creio, juntar pessoas de todos os grupos de Osteopatia, com a mais variada experiência profissional, numa acção cordial. Foi uma manifestação de humildade e vontade de aprender. Pessoalmente, achei fantástico. Pareceu-nos que ficou claro que todos se sentiram confortáveis em trabalhar em conjunto, em formar grupos de estudo e partilha de informação, independentemente da sua formação de base. E ficou óbvio que é preciso melhorar, bastante. Foi realmente único ver osteopatas com muitos anos de exercício, com as carreiras totalmente estabilizadas, a nível de carteira de utentes e financeiramente, a dizerem que querem continuar a evoluir. Assim como foi reconfortante ver pessoas que sentiram que ali vão encontrar o que precisavam para iniciar uma carreira de sucesso.

Alguns que fazem parte deste grupo dão aulas em escolas de Osteopatia. Não tenho dúvidas que vão aplicar os seus novos conhecimentos e competências nos cursos a que estão ligados. Isso é a consequência natural de se ser melhor e já não poder voltar a um nível inferior. Aquilo que se sente é uma vontade de melhorar o que está à nossa volta. É uma das razões que nos deixa imensamente felizes, ver que as nossas iniciativas estão a mudar por dentro a comunidade osteopática.

Da parte dos colegas osteopatas formados em países onde a profissão está regulamentada, também recebemos palavras de elogio e encorajamento. Falo essencialmente do Dr. Jody Jakob e Dr. Augusto Henriques, que se têm envolvido mais com o desenvolvimento da profissão. O Dr. Jakob tem um programa de treino clínico muito interessante, para osteopatas recém-formados ou que sintam necessitar de apoio profissional. Também é da sua responsabilidade a criação de um fórum de discussão internacional. O Dr. Augusto Henriques tem feito o trabalho mais político, com as ferramentas que tem ao seu dispor, enquanto vai investindo na sua progressão académica. Estes osteopatas percebem a importância de iniciativas como esta, porque sabem bem o que lhes custou atingir, e custa actualmente manter, o nível. Enfim, todas as pessoas que querem o bem da Osteopatia reagiram positivamente.

JA- O que acha de todo o Processo de Regulamentação?

PE- Que nunca mais acaba (Risos)! Estamos numa fase crítica, com a consulta pública de parte dos documentos. Em termos genéricos é uma oportunidade de ouro para conseguir várias coisas. Primeiro, podemos demonstrar a vitalidade da profissão, com os osteopatas a participarem activamente no Processo emitindo a opinião. Em segundo lugar, podemos aproveitar para criar laços entre osteopatas com diferentes origens e correntes de opinião, aproveitando a mais-valia da experiência e do empenhamento de pessoas que agora não têm visibilidade. Também é importante começar a lançar as bases para um dia podermos ter um organismo regulador oficial que proteja o utente e uma associação profissional única, como já referi, para representar os osteopatas. E, por fim, para mim a cereja no topo do bolo, é uma oportunidade de elevarmos o exercício da Osteopatia e de contribuir para se começar a instalar uma cultura de exigência na profissão.

JA- Como é que um processo destes poder elevar o exercício profissional?

PE- Será por consequência. Uma das sugestões propostas na Regulamentação é a aplicação de um processo de aferição da competência clínica dos osteopatas. O fundamento base é que o osteopata terá de demonstrar possuir um nível mínimo de competência para poder exercer legalmente. Esta aferição não deve ser conferida pelo reconhecimento automático de graus académicos ou anos de exercício, pois estes não atestam a sua verdadeira competência profissional. A prova que as coisas são de facto assim, veio do Reino Unido uma vez mais, aquando da regulamentação da Osteopatia. Os candidatos a osteopata formados em escolas consideradas mais conceituadas tiveram tanta dificuldade a demonstrar a sua competência, como os que se formaram em escolas de duvidosa qualidade. Ou seja, aquilo que se percebeu é que a formação de base dava o suporte teórico-prático, que poderia ser melhor ou pior, mas que a forma como o osteopata geria o seu desenvolvimento profissional é que determinava a sua competência.

Com a variedade de formações que tem havido em Portugal e no estrangeiro onde a profissão não está regulamentada, como em Espanha e vários países francófonos, o único modo de uniformizar isto é estabelecer um limite mínimo para o que se considera competência em Osteopatia e depois fazer todos atingir esse limite. É no cumprir desse objectivo que está a elevação do exercício profissional.

JA- Mas será assim tão importante que haja esta avaliação de competência?

PE- A minha perspectiva é clara, se não houver qualquer avaliação de competência e capacidades vai ser catastrófico para a profissão. A autonomia clínica que o osteopata goza hoje em dia não decorre da sua qualidade, mas sim de não haver regulamentação, ou seja, por não haver qualquer controlo sobre a sua conduta ético-deontológica e exercício profissional. Para ter uma ideia da importância desta acção para o controlo de qualidade interna e confiança do público nos profissionais, no Reino Unido está a discutir-se haver um processo de avaliação de competência minucioso a cada osteopata com uma frequência regular, um exame de competência à Ordem, do tipo que se pretende em Portugal, adicional ao que se faz actualmente todos os anos.

O medo que as pessoas têm desde processo de aferição de competência é injustificado. O que elas têm de perceber é que haverá ajuda para as pessoas se prepararem para esse processo. E mesmo que as pessoas não consigam numa primeira fase atingir esse tal limite mínimo, vão ser ajudadas, para o conseguirem mais tarde. Enquanto muitos vêem nisto um papão, eu vejo uma oportunidade única para melhorarmos. Com ou sem essa aferição de competência obrigatória, era bom que se aproveitasse esta oportunidade para se proporcionar aos osteopatas meios de melhorarem e irem para além do que foi a sua formação de base. Por isso é que era excelente que outras iniciativas do género da que estamos a fazer neste momento, começassem o mais cedo possível. Não tenho dúvidas que é o que vai acontecer, até porque é uma oportunidade de negócio para quem quer investir na educação do osteopata.

JA- Independentemente da forma positiva como se refere a este processo, o que me parece é que qualquer processo que tenha a ver com avaliação transporta consigo uma carga pesada, até em termos emocionais.

PE- Tem razão e só quem não passou por isso é que não sabe como pode ser difícil. Por isso é que todo esse processo deverá ser feito com o máximo de cuidado e respeito pelas pessoas. A questão central é que não há uma fronteira definida para o que é ser osteopata. E não há porque não exista, mas porque em Portugal, devido a não haver regulamentação, ninguém é obrigado a respeitar essa fronteira. É preciso que se perceba que esse trabalho já foi feito noutros países, fora e dentro da Europa. Portanto, não se está a criar uma profissão do zero. Ela já existe, está caracterizada e definida nas suas diversas componentes, desde os conteúdos funcionais, até aos programas curriculares. As pequenas variações que possam existir são culturais e não de conteúdo.

Em Portugal ninguém vai inventar a pólvora, no que diz respeito à Osteopatia. Por isso, aquilo que tem de se fazer como parte do processo de regulamentação em Portugal é pegar em todos os candidatos a osteopatas e compará-los com o que é exigido nos tais países onde a profissão está regulamentada. É simples. Seria impensável, para não dizer impossível, que em Portugal se fosse aceitar osteopatas que não tivessem o nível, nem o tipo, de conhecimentos dos seus colegas dos países onde a profissão está regulamentada. Quanto a isso não há nada a fazer, é por eles que nos devemos nivelar.

JA- Fala como se fosse mesmo haver uma avaliação destes.

PE- Não, não, falo é sobre as vantagens para a profissão de um processo destes. Neste momento é só uma proposta. Se se chegar à conclusão que há formas melhores de aferir quem tem um padrão de prática mínimo para se ser osteopata, então que seja apresentado para ser discutido.

JA- Quais os seus projectos pessoais?

PE- A minha vida profissional centra-se em três dimensões. A principal é a do exercício clínico, que decorre em Portugal, que é o pilar central da minha actividade e à qual dedico mais tempo. Adicionalmente, dou aulas na licenciatura de Osteopatia de uma universidade britânica, Oxford Brookes University, onde estou integrado em várias equipas de ensino, como avaliação, técnica e diagnóstico osteopático e outras com cariz mais clínico-profissional, onde se faz a integração dos conhecimentos das várias matérias. Estou envolvido com todos os anos, do primeiro ao quinto. E a terceira dimensão é a da investigação científica, através do doutoramento que realizo em Inglaterra, na mesma universidade.

JA– Quantos portugueses estão envolvidos na docência em países onde a profissão está regulamentada?

 PE – Que eu saiba são dois, o Jorge Esteves e eu. Embora o Jorge tenha uma experiência e envolvimento incomparáveis. O Jorge está envolvido com elaboração, implementação e coordenação de programas de licenciatura e mestrados em Osteopatia. Pertence ainda a comissões da Ordem dos Osteopatas no Reino Unido para controlo da qualidade dos cursos oficiais de Osteopatia no país e a processos de avaliação de competência clínica para exercício profissional. Para além de dar aulas, claro. As minhas tarefas centram-se apenas na docência, o que me obriga a estar vários dias por mês em Inglaterra.

JA- O que o atrai na docência?

PE- Faço-o para manter o cérebro estimulado e para estar sempre a ser avaliado na minha competência profissional (risos)! Poder fazer parte do corpo docente da Oxford Brookes University dá-me muita alegria, pela ligação que tenho com a universidade e porque é uma oportunidade de estar perto de pessoas que me inspiram. É também uma forma de retribuir o muito que estas pessoas me dão. Estou muito grato pela confiança que depositaram em mim e que os levou a convidar-me. O facto de ser o primeiro ex-aluno do curso a começar a ensinar no mesmo e ser o segundo português a dar aulas numa universidade pública num país onde a profissão está regulamentada é algo que me satisfaz profundamente.

JA- Qual é o tema do seu doutoramento?

PE- É a elaboração e validação de um instrumento clinicamente prático, de avaliação objectiva e com elevada precisão, do controlo e prestação motora do membro superior, em actividades funcionais. Procurei um tema que fosse clinicamente útil, já que vou dedicar vários anos da minha vida a isso, e que englobasse as várias áreas da minha formação académica, Engenharia, Fisioterapia e Osteopatia.

JA- Qual é a relevância da sua investigação para a Osteopatia?

PE- A relevância vai muito para além da Osteopatia, é algo que tem repercussões em todo o mundo da Saúde e das tecnologias de apoio a esta. A razão é simples. Continuamo-nos a debater com a falta de instrumentos de medida objectiva que quantifiquem as perturbações do movimento e da prestação motora. Por consequência continuamos a não conseguir medir objectivamente e com precisão os resultados das intervenções terapêuticas. É fundamental ter acesso a estes instrumentos de medida, porque necessitamos de distinguir o que resulta do que não resulta, fundamentar a nossa prática em evidência científica e ter o máximo de dados acerca dos efeitos da nossa intervenção terapêutica, para informar acerca do processo de decisão clínica.

Em termos da Osteopatia em si, as repercussões são alargadas. Primeiro, é muito importante que numa profissão tão jovem como esta, que surjam pessoas a serem expostas ao raciocínio e modelo científico, pois é aquele que se tem mostrado mais capaz e fidedigno em produzir conhecimento útil para as nossas vidas. Vai ser a melhor forma de encontrarmos explicações para o sucesso da nossa intervenção, para a justificar e para deixarmos cair certos mitos. Em segundo lugar, precisamos de aumentar o contingente de osteopatas com graus académicos acima de licenciatura. Se isso é muito importante no Reino Unido, em Portugal é muito mais.

Em termos mais clínicos, o que a minha investigação vai trazer à Osteopatia, que para mim é mais relevante, é a possibilidade de identificarmos perturbações de movimento em actividades do dia-a-dia que são a causa de lesões músculo-esqueléticas, como tendinites, alterações da mobilidade articular ou compensações musculares. Podemos assim actuar na causa e não na consequência, que é um dos pilares filosóficos da Osteopatia.

JA- Onde é que na sua actividade profissional se cruza a Osteopatia e a Fisioterapia?

PE- Eu costumo dizer que sou o osteopata do mundo que mais osteopata quis ser, porque fui para Fisioterapia para me tornar osteopata. Ambas me deram imenso e estando com um pé em cada uma só me deixa mais forte e competente. Confesso que em termos de coração sou puramente osteopata, é onde tenho a ligação emocional e onde me sinto confortável. Mas ainda bem que também sou fisioterapeuta porque me permite ver as coisas de outros ângulos e ter acesso a informação de excelente qualidade. Em muitos aspectos a Fisioterapia está muito mais avançada do que a Osteopatia e gosto de perceber como esta pode melhorar, porque nalgumas coisas o caminho é igual. O osteopata tem uma imaginação muito fértil e isso levou-o a criar modelos terapêuticos e ideias acerca de como o corpo humano funciona na Saúde e Doença que são revolucionários e inovadores. Também conseguiu ser uma profissão muito mais humanista, centrada na pessoa. Penso que é por isso que tenho mais ligação à Osteopatia. Mas por mais que custe a muita gente, não renego a minha formação em Fisioterapia e agradeço tê-la tido. Assim como a dos 4 anos que fiz de engenharia. Não há um dia em que não me lembre disso e que não agradeça por tal. Sabe que ao contrário de em Portugal, na Inglaterra a pessoa ter várias formações é altamente valorizado.

Só mais uma pessoa em Portugal pode falar com conhecimento de causa acerca do que significa fazer estes dois cursos reconhecidos nos seus países, a Dra. Catarina Martins. E portugueses, contam-se pelos dedos de uma mão as pessoas que frequentaram com sucesso um curso de Osteopatia reconhecido e validado por um organismo estatal. Portanto, mesmo que na minha actividade profissional misturasse as duas profissões, poderia fazê-lo com toda a autoridade moral e técnica, porque sei muito bem o que é cada uma e provei em ambas a minha competência e capacidade.

JA- Na pesquisa que realizei dei-me conta que há formação em Osteopatia integrada noutros cursos, como Naturopatia ou na forma de pós-graduações para profissionais de Saúde apenas, nomeadamente fisioterapeutas. O que significa isso?

PE- É verdade. Isso só mostra como a Osteopatia é apetecível. Também é prova que todas as profissões têm as suas limitações, o que leva os profissionais a procurarem nichos de formação complementar. Eu não vejo qualquer problema nisso, nem me causa qualquer repulsa que hajam cruzamentos profissionais, sou um defensor, por princípio, da ideia de terapia total. Mas a questão não é só com os fisioterapeutas ou naturopatas. Há muitos osteopatas que também são homeopatas ou acupunctores. O que temo é a salganhada filosófica, porque cada uma destas profissões implica um modo de pensar próprio. Mas desde que a formação que façam em cada uma destas seja a correcta, o que fazem no seu consultório é com eles e há-de ter qualidade. Por isso é que não é suficiente fazer-se um curso, mesmo que reconhecido, mas também fazer prova frequente da manutenção das competências e capacidades que lhes conferiram o direito de ser um elemento dessa profissão. O que me parece é que é capaz de ser difícil gerir a quantidade de informação que cada uma exige, mas não me parece haver uma incompatibilidade ética. 

Os profissionais que conjugam a Fisioterapia com a Osteopatia têm uma característica própria, que até pode ser muito útil à Osteopatia – têm pelo menos uma profissão reconhecida em Portugal, a Fisioterapia, estando inclusivamente muitos a trabalhar no Sistema Nacional de Saúde. Alguns até são professores universitários. Numa profissão como a Osteopatia com tantas lacunas e a necessitar tanto de aumentar os seus recursos humanos de qualidade, não podemos dispensar a mais-valia que estes profissionais têm para oferecer. Contudo, que fique muito claro que a Osteopatia não é apêndice para nenhuma profissão.

Manter intacta a identidade osteopática e o corpo filosófico não é por uma questão sentimental ou de capricho, mas porque me parece que esta tem algo de único para oferecer e por isso não deve ser contaminada por nenhuma outra actividade profissional. Este risco é grande em Portugal porque não temos uma identidade profissional forte, por motivos que já apontei. Nos países onde a profissão está regulamentada não se coloca essa questão. Mas não posso também deixar de dizer que o corpo de conhecimentos ainda tem muito que evoluir. Há muitos conceitos em que se baseiam as nossas intervenções terapêuticas que estão desactualizados, já perderam o sentido; outros devem ser testados para saber se é de facto assim como se reclama e para expandir a nossa compreensão de certos fenómenos e como melhorar a nossa estratégia de resolução dos problemas. Mas isso é igual para todos na Saúde. A Osteopatia só precisa que haja dinheiro para investir em investigação científica e pessoas a querem dedicar-se a ela.

JA- A profissão médica é muito forte em Portugal e outras profissões da Saúde estão muito implementadas na sociedade. Como acha que vai ser a afirmação da Osteopatia?

PE- Só há uma forma e não é a maldizer ou minimizar os outros. Na minha perspectiva, tem de se passar a mensagem, por ser verdade após a regulamentação, como se espera, que há uma entidade que garante a qualidade da formação e do exercício profissional, em que o osteopata presta provas regularmente da sua capacidade e competência. Esta entidade também tem de ser a primeira a garantir que o osteopata segue escrupulosamente o código moral e ético-deontológico, entre colegas e profissionais de Saúde. A sociedade tem de ter a garantia que está protegida contra a má prática do osteopata. Por isso, é fundamental que os utentes sintam que os mais interessados em identificar os profissionais que não estejam à altura da profissão, para actuar de acordo, são os próprios osteopatas, através do organismo que representar a Osteopatia. Dar confiança a todos que há uma auto-regulação eficaz da profissão é o caminho para a nossa afirmação. A qualidade do exercício clínico e da conduta profissional fará o resto. E esta forma de estar só depende de nós, do nosso esforço e do nosso brio, ou seja, valorizando-nos. É claro que isso colocará muita pressão em cada um dos profissionais, vai ser muito exigente, mas se reclamamos o direito de sermos respeitados e reconhecidos, então também temos de estar dispostos a pagar o preço.

JA- Muito obrigado pelo seu tempo.

PE- Muito obrigado eu, pela oportunidade.

*Joana Almeida é Mestre em Sociologia e encontra-se actualmente a realizar um Doutoramento na Royal Holloway, University of London, na área da Sociologia das Profissões, estudando a implementação das terapêuticas não convencionais no sistema de saúde português.